Antes que o Algoritmo Defina Quem Eles São: Um Plano para Pais da Geração Z and Alfa na Era das Telas
- Reildo Souza

- há 6 dias
- 5 min de leitura
Como Terapeuta Holístico que conversa principalmente pela tela com adolescentes, jovens adultos e adultos mais velhos, tenho um acesso direto ao mundo digital deles. Os pais com quem trabalho frequentemente compartilham a mesma preocupação: "Não entendo o mundo deles, e parece que isso os está deixando infelizes."
Se esse é o seu caso, saiba que você não está sozinho. O que estou vendo não é apenas "drama adolescente". É um choque real entre o bom coração do seu filho e o próprio design dos aplicativos que ele ama.
A Corda Bamba da Geração Z: Cuidar Profundamente em um Mundo Movido a "Likes"
Os adolescentes e jovens adultos com quem converso estão entre as pessoas mais solidárias e com princípios. Eles são apaixonados por justiça, pelo planeta e pela saúde mental. Mas eis o problema: o principal ponto de encontro deles—as redes sociais—é construído sobre um sistema que pode lentamente corroer esses mesmos valores.
Imagine a mente do seu filho como um jardim. Sua empatia e curiosidade naturais são plantas lindas e fortes. Mas rolar o feed do TikTok e do Instagram é como despejar uma mistura de fertilizante e herbicida nesse jardim todos os dias. O fertilizante faz sua necessidade de aprovação e comparação crescer descontroladamente. O herbicida pode atrofiar as raízes mais profundas da paciência, da autoestima e da capacidade de simplesmente ser.
Nas minhas sessões, ouço isso diariamente:
"A vida de todo mundo parece mais emocionante do que a minha."
"Postei sobre uma causa importante, mas só conseguia pensar em quem viu."
"Tenho 500 amigos online, mas me sinto completamente sozinho."
Isso não é vaidade. É uma reação lógica a um ambiente que transforma tudo—inclusive seus valores—em uma performance.
A Boa Notícia: Eles Já Estão Se Adaptando (Você Pode Apenas Não Estar Vendo)
Eis algo esperançoso que aprendi. Seus filhos já estão criando suas próprias soluções. Eles estão construindo casinhas na árvore digitais—espaços secretos e privados online onde podem apenas ser eles mesmos.
Você pode conhecê-los como:
Uma "Finsta" (uma conta privada e "falsa" no Instagram apenas para os amigos mais próximos).
Um servidor privado no Discord com um nome engraçado.
Um grupo de conversas bloqueado onde compartilham pensamentos sem edição ou filtro.

Não veja isso como eles se escondendo. Veja como algo brilhante: eles estão construindo muros para proteger seu verdadeiro eu. Eles estão criando um pequeno cantinho da internet onde não precisam performar, onde os likes não importam e onde podem praticar uma amizade de verdade. Isso é um sinal de saúde, não de segredo.
O Que Você Pode Fazer: Seja um Guia, e Não Apenas um Guarda
Você não precisa ser um especialista em tecnologia para ajudar. Você só precisa ser um orientador curioso e solidário.
Inicie uma conversa, não um confronto. Em vez de dizer "Sai desse celular!", tente perguntar no jantar: "Qual foi a coisa mais engraçada ou mais real que você viu no seu chat privado com os amigos hoje?" ou "Mostrar a sua vida online às vezes te deixa cansado?" Isso abre a porta sem acusações.
Mude o foco do TEMPO de tela para o PROPÓSITO da tela. Ajude-os a fazer uma pergunta simples antes de abrir um aplicativo: "Do que eu preciso agora?" Tédio? Conexão? Informação? Então, depois de alguns minutos, eles podem verificar: "Meu celular atendeu a essa necessidade ou apenas me distraiu dela?" Essa pequena pausa constrói o músculo da autoconsciência.
Modele o equilíbrio que você quer ver. Esta é a ferramenta mais poderosa que você tem. Converse sobre colocar seu próprio telefone em outro cômodo durante o tempo em família porque você se distrai. Leia um livro físico na frente deles. Mostre a eles que uma vida realizada existe além do feed.
Geração Alfa: Seu Filho Nasceu com um Tablet na Mão
Se você é pai ou mãe de uma criança nascida após 2010, está navegando em um território inexplorado. Essas crianças não "usam" a tecnologia; elas vivem nela tão naturalmente quanto nós vivemos no ar. Nas minhas sessões online com crianças mais novas e seus pais, vejo um novo tipo de desafio. É menos sobre estresse nas redes sociais e mais sobre algo fundamental: como o cérebro delas está aprendendo a focar, esperar e sentir.
Para uma criança Alfa, Roblox não é apenas um jogo. É seu parquinho, seu shopping center e seu principal centro social—tudo em um só. Elas estão aprendendo a colaborar e criar de maneiras incríveis, mas as recompensas instantâneas e a estimulação constante podem fazer o mundo real parecer... lento. E chato.
A maior preocupação que ouço dos pais é: "Eles conseguem construir um mundo inteiro online, mas têm um colapso quando precisam esperar cinco minutos no mercado." Isso não é apenas má criação. O cérebro deles está sendo treinado pelos aplicativos para ter feedback instantâneo. A parte do cérebro que pratica a paciência—o "músculo da espera"—não está recebendo o mesmo treino.
O Novo "Perigo do Estranho": A Terceirização Digital
Há caso de crianças brilhantes de 8 anos que "perguntaram para a Inteligência Artificial" como lidar com uma briga com um amigo. Isso é um divisor de águas. Quando o primeiro instinto de uma criança para uma questão emocional ou complexa é perguntar a uma máquina, elas correm o risco de pular uma etapa crítica: descobrir por si mesmas. Temos que ajudá-las a fortalecer sua própria voz interior.
Seu Manual para Criar um Nativo Digital Equilibrado
O objetivo não é tirar o tablet. É garantir que seu filho desenvolva um núcleo forte e resiliente fora dele.
1. Proteja o Tempo "Chato" Como se Fosse uma Vitamina.O cérebro deles precisa de tempo de inatividade para crescer criativamente. Crie rituais diários sem telas na vida da sua família: jogos de cartas, caminhadas, cozinhar ou apenas um tempo de leitura tranquila. Isso não é uma punição. É alimento cerebral essencial que nenhum aplicativo pode fornecer.
2. Seja o "Treinador de Emoções" para o Mundo Real.Já que as telas não podem ensiná-los a ler a sala, você tem que fazer isso. Nomeie emoções—as suas e as deles. "Você parece frustrado porque sua torre caiu. Tudo bem!" Brinque de "adivinhar o sentimento" a partir das expressões das pessoas em um livro ou no parque. Isso constrói a inteligência emocional de que precisam para a vida.
3. Co-jogue e Co-assista.Não apenas entregue o dispositivo a eles. Sente-se com eles. Faça perguntas. "Por que você escolheu esse personagem?" "Qual é a sua estratégia aqui?" "Como você acha que a pessoa no vídeo se sentiu?" Isso transforma o consumo passivo em uma experiência ativa e de vínculo, e ensina pensamento crítico.
4. A Regra Mais Importante: Seu Celular Desce Primeiro.Eles percebem tudo. Se você está rolando a tela durante o jogo de futebol deles ou no jantar, suas palavras sobre "menos tempo de tela" perdem todo o sentido. Mostre a eles, com suas ações, que as pessoas vêm em primeiro lugar.
Você não está travando uma batalha perdida. Você é o guia mais importante do seu filho, tanto no mundo tangível quanto no digital. Ao focar em conexão, conversa e seu próprio exemplo, você está dando a eles as ferramentas para não apenas sobreviver online, mas para permanecer verdadeiramente humano dentro dele.
Comentários