QUEM OBSERVA OS SEUS PENSAMENTOS? (A PERGUNTA QUE DESMONTA A ANSIEDADE)
- Reildo Souza

- há 1 dia
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A Anatomia do Nosso Diálogo Interno
Desde o momento em que abrimos os olhos, o monólogo começa. É o "eu" que sussurra: "Que sono", "Hoje vai ser corrido" ou "Por que falei aquilo?". Essa voz constante não é um fato da natureza, mas um hábito que aprendemos juntos. Desde cedo, fomos treinados a narrar nossa existência, como se precisássemos de uma história em tempo real para lembrar quem somos. O risco está em começarmos a confundir a narração com a vida real.
Quem Escuta o Narrador? Se somos nós que falamos dentro de nossa cabeça, então quem está ouvindo? Conseguimos observar nossos próprios pensamentos passarem, o que significa que não podemos ser idênticos a eles. Somos a testemunha silenciosa, mas vivemos como se fôssemos o barulho que testemunhamos.
Somos a Tela, Não o Filme: Ficamos tão fascinados pelo drama que se desenrola em nossas mentes — as memórias, ansiedades, planos — que esquecemos nossa verdadeira natureza. Imagine uma tela de cinema: por mais intensa que seja a cena projetada, a tela em si não é queimada pelo fogo nem molhada pela chuva do filme. Da mesma forma, nossa consciência essencial permanece intacta, independente do enredo mental.
Como a Voz nos Convenceu de que Ela é Nós
O grande truque aconteceu através da ferramenta mais poderosa que compartilhamos: a linguagem.
A Magia do "Eu":Ao repetir incessantemente a palavra "eu", a mente criou um centro fictício — um ponto de referência onde, na verdade, existe apenas um fluxo contínuo de experiência. É uma construção gramatical que tomamos por realidade.
Os Pensamentos Chegam Sozinhos: Repare: não decidimos conscientemente pensar cada pensamento antes que ele surja. Eles emergem espontaneamente, como as nuvens no céu. No entanto, imediatamente surge a apropriação: "Minha ideia", "Meu problema". A voz se apressa em reivindicar a autoria de algo que simplesmente aconteceu.
Procurando o Autor da Pegada: Buscamos o "eu" como se fosse um objeto perdido. Mas essa busca é como estudar uma pegada na areia e procurar o pé que a fez dentro da própria marca. O "pensador" nunca é encontrado nos pensamentos — ele sempre parece estar um passo atrás, sempre na posição daquele que observa.
A Ilusão do Comando e o Peso da Culpa
Crescemos com a ideia de que existe um "controlador" dentro de nós — um pequeno gerente que comanda nossos pensamentos e ações. Essa metáfora nos cobra um preço caro.
A Culpa dos Pensamentos Invasivos: Se acreditamos que somos os autores de tudo o que surge em nossa mente, nos sentimos responsáveis — e muitas vezes envergonhados — por pensamentos indesejados, medos ou desejos que parecem surgir do nada. Carregamos uma culpa por algo que não controlamos.
Uma Perspectiva Libertadora: E se não formos o gerente, mas a empresa inteira em funcionamento? Não dirigimos nosso corpo como um carro — nós somos o organismo vivo, com todos os seus processos, incluindo o pensamento espontâneo. Quando percebemos que os pensamentos simplesmente acontecem, como a digestão ou a respiração, o peso da autoria começa a se dissipar.
O Silêncio que Tudo Sustenta
Nos fixamos nos conteúdos da mente — problemas a resolver, metas a alcançar. Mas raramente notamos o pano de fundo que permite que todo esse conteúdo exista.
A Importância do Vazio: Assim como o espaço vazio dentro de uma sala é o que a torna habitável, é o espaço silencioso da consciência que permite que pensamentos, sensações e emoções surjam e se movam. Esse espaço não é um vazio morto, mas uma presença vibrante e receptiva.
Mudando a Identificação: Nossa liberdade começa quando transferimos nossa sensação de identidade dos pensamentos passageiros para essa consciência silenciosa que os contém. Deixamos de ser a nuvem passageira e nos reconhecemos como o céu vasto.
O Grande Jogo do Universo
Há uma beleza poética e até humorística nessa nossa condição: a dificuldade de nos percebermos tal como somos parece fazer parte de um jogo maior.
A Peça Cósmica: Imagine que a consciência total, capaz de qualquer coisa, buscasse aventura. O que faria? Talvez decidisse esquecer temporariamente sua própria natureza para poder viver a emoção da descoberta, do desafio, da limitação. Nossas vidas, com todas as suas buscas e dramas, seriam essa peça divina — uma brincadeira cósmica de esconde-esconde consigo mesma.
A Piada que Somos Nós: A busca pela paz ou pelo entendimento tem uma ironia fundamental: aquele que busca já é aquilo que procura. É como correr desesperadamente atrás dos próprios pés. A realização final não é a descoberta de algo novo, mas o reconhecimento do que sempre esteve aqui: esse espaço silencioso e consciente que já somos, antes mesmo do primeiro pensamento do dia.
Em Essência: Não somos a história que contamos a nós mesmos. Somos o silêncio profundo que ouve a história. Somos a presença que testemunha o drama sem se perder nele. Quando essa compreensão amadurece em nós, o mirage do "eu" separado perde sua solidez, e encontramos repouso na quietude inteligente que sempre fomos — e que sempre seremos, juntos.

PRÁTICA DIÁRIA: DO NARRADOR AO SILÊNCIO
🟢 NÍVEL 1: OBSERVADOR INICIANTE (Primeira Semana)
Objetivo: Criar consciência do narrador interno sem julgamento.
Exercício Único: "A Pausa do Reconhecimento"
Quando: 3x ao dia (ao acordar, antes do almoço, antes de dormir) Duração: 30 segundos cada
Passos:
PARE o que está fazendo
PERGUNTE: "Que história minha mente está contando AGORA?"
IDENTIFIQUE: "Ah, isso é o pensamento do [preocupado/ansioso/planejador]"
AFIRME: "Eu não sou essa história. Sou quem a observa."
VOLTE à sua atividade
Meta semanal: Apenas notar 3x ao dia, sem tentar mudar nada.

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