top of page

O Medo da Guerra e o Parto de uma Nova Consciência: Como Não Deixar o Pânico Tomar Conta

Nos últimos dias, tenho observado algo que me preocupa mais do que os próprios acontecimentos: a forma como o medo tem colonizado corações inteiros. O noticiário sobre o Irã chega como um aperto no peito coletivo. A guerra — essa velha conhecida da humanidade — volta a pairar como um fantasma que nos faz acreditar, muitas vezes, que o fim está próximo.


Mas a história nos mostra o contrário. Já estivemos no abismo inúmeras vezes, e sempre encontramos o caminho de volta. Não por acaso, mas porque, no meio do caos, sempre há quem se recuse a entregar a própria lucidez.


No meu trabalho com o projeto Anjo com Amnésia, parto de uma imagem que dá título ao livro: somos como anjos que esqueceram sua própria natureza. Perdemos a memória de quem realmente somos — seres conectados, parte de um todo muito maior do que o ego consegue enxergar. Essa amnésia nos faz acreditar na separação, na competição, no medo do outro. E a crise que vivemos, seja ela geopolítica ou existencial, é na verdade um sintoma: o sintoma de um parto. O nascimento de uma nova consciência emerge justamente quando o velho ego — individual e coletivo — já não dá mais conta da realidade.


O problema, claro, é que partos doem. E a pergunta que fica é: como manter a sanidade enquanto essa transformação acontece?


Tenho uma resposta prática, construída ao longo dos anos a partir do que chamo, no livro, de ferramentas de empatia ativa e pensamento crítico. São escolhas pequenas, mas que fazem toda a diferença — e que dialogam diretamente com o que vivemos agora.


1. Filtrar a dieta mental

O pensamento crítico começa com o que você deixa entrar. No primeiro capítulo de Anjo com Amnésia, falo sobre "O Jardim da Mente" e como a avalanche de informações que nos assola diariamente, em vez de nos iluminar, muitas vezes nos cega para o que realmente importa: nossa capacidade de imaginar um futuro diferente. Se você passa três horas por dia rolando feeds de guerra, não está se informando — está se intoxicando. Sei disso porque já estive desse lado, e aprendi da pior forma que o excesso de exposição ao pânico não nos prepara para a realidade; apenas nos esvazia, nos rouba a capacidade de agir com clareza e nos torna reféns de uma ansiedade que não serve a ninguém.


Minha proposta não é se fechar para o mundo, mas escolher com consciência como nos relacionamos com ele. Reserve 15 minutos por dia para saber o essencial sobre os acontecimentos. O tempo que sobra, e que antes era consumido pelo desespero passivo, pode ser reinvestido no que está ao seu alcance. Não para ignorar a dor do outro, mas para não desperdiçar sua energia em um lugar onde ela não vira ação. Cuide da sua rotina, sim, mas também cuide de quem está perto. Fortaleça sua comunidade. Cultive conversas que humanizam, não que alimentam o pânico. Porque é desses pequenos núcleos de lucidez que nascem as respostas coletivas quando a tempestade chega.


2. Praticar a humanização

Uma das armas mais eficientes do medo é a desumanização do outro. E ela não acontece por acaso. Somos constantemente educados para ela. Basta olhar para grande parte da indústria do entretenimento: quantos filmes de guerra, ação e até ficção científica nos apresentam o conflito como solução, o inimigo como uma figura unidimensional a ser eliminada, a violência como resposta natural e até heroica? Essas narrativas, repetidas à exaustão, vão moldando nosso imaginário. Vão nos ensinando, sem que percebamos, a enxergar o outro como ameaça, como obstáculo, como algo menos que humano.


No livro, dedico um capítulo ao que chamo de "O Vírus da Separação" — o egoísmo entendido como um vírus silencioso que nos faz esquecer que estamos todos conectados. E essa desconexão é constantemente alimentada pelas histórias que consumimos. Sempre que lemos sobre "o inimigo" ou "o outro lado", somos treinados a enxergar apenas blocos, bandeiras, interesses. Mas eu aprendi, na prática da empatia ativa, que existe um exercício poderoso: imaginar uma mãe, lá no Irã ou em qualquer lugar onde a tensão está alta, colocando o filho para dormir com os mesmos medos que eu tenho.


Quando você humaniza o outro, o algoritmo do ódio — seja ele midiático, político ou social — perde o poder sobre você. Você quebra a amnésia da separação. E, ao fazer isso, também rompe com uma doutrinação silenciosa que nos ensina, desde cedo, que o conflito é inevitável e o outro é descartável.


No capítulo sobre "O Despertar do Anjo Esquecido", exploro essa ideia de que a cura para o egoísmo — essa doença que nos isola — começa quando reconhecemos nossa interdependência. E a empatia ativa é uma das práticas centrais desse despertar: um ato de resistência consciente contra tudo o que nos ensina a desumanizar.


A esperança como decisão estratégica

Não acredito numa esperança ingênua, que cruza os braços e espera o mundo melhorar sozinho. A esperança que me move é uma decisão estratégica: manter a luz acesa durante a tempestade. No capítulo "O Grande Despertar da Consciência", sugiro que estamos diante de um verdadeiro "Big Bang da consciência" — um movimento de expansão que nos convida a sair da prisão do ego e reconhecer que somos parte de um todo vivo e pulsante.


A aurora de uma nova civilização não vai surgir de um evento grandioso, mas sim da sua decisão — e da minha — de não sermos mais soldados do medo. É a escolha cotidiana de agir com inteligência, e não com reatividade. Como escrevo no livro, a inteligência não está em competir, mas em cooperar; não em acumular, mas em compartilhar; não em temer o outro, mas em reconhecer nele a mesma centelha que nos habita.


Use a empatia ativa e o pensamento crítico como ferramentas de autoaceitação e autoamor. Lembre-se: como sugiro nos capítulos finais do livro, a transição do ego para o Self pode acontecer por amor ou por dor. A escolha é nossa. Se a mudança não for estratégica e real, ela vira apenas punição. E o autoconhecimento, esse sim, nos lembra que liberdade é mais do que conforto — é a possibilidade de escolher, em meio à tempestade, quem queremos ser.


Vamos em frente. O amanhã ainda está sendo escrito. E como escrevi na conclusão de Anjo com Amnésia: o futuro, vibrante e cheio de infinitas possibilidades, aguarda ansiosamente o nosso despertar.

Comentários


bottom of page