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O Covarde Moral: Como nossa busca por segurança cria o próximo ditador

O caminho que nos leva à tirania raramente começa com ódio escancarado. Ele começa de um jeito muito mais discreto e, por isso mesmo, mais perigoso: começa com o nosso medo. Não aquele medo de um perigo imediato, mas um estado constante de ansiedade que surge quando passamos a ver a incerteza como uma ameaça. Temos medo do outro, do que não controlamos, do erro, de sermos excluídos. Quase nunca admitimos que é medo — preferimos chamar de "prudência", "senso de responsabilidade" ou "pés no chão". É o nosso instinto de sobrevivência sequestrado pela nossa obsessão por controle.


Quando deixamos o medo organizar como a gente vê o mundo, passamos a exigir respostas. É aí que a ideia de segurança aparece como um calmante. Ela nos promete que tudo será previsível e que teremos o controle de volta. Não importa se esse controle é real; só precisamos que ele nos convença emocionalmente. A segurança funciona como uma anestesia: ela não tira o risco, mas apaga a angústia que o risco nos traz. O problema é que caímos numa cegueira coletiva: a segurança absoluta não existe. Buscar "risco zero" é, na prática, escolher a imobilidade total.


Para sustentar essa ilusão, a gente acaba simplificando o mundo. Criamos mil regras, as diferenças começam a nos incomodar e a pluralidade vira barulho. A liberdade, que a gente dizia amar, passa a ser vista como um perigo. Questionar vira irresponsabilidade; divergir vira uma ameaça à ordem. Aos poucos, aceitamos a ideia de que alguém precisa decidir por nós — e que esse "alguém" sabe mais do que a gente.

O homem perdido pelo Medo

Nesse ponto, passamos a ver a obediência não como fraqueza, mas como virtude. Obedecer vira sinal de maturidade e compromisso com o bem comum.


Começamos a terceirizar nossa moral para a autoridade, para o sistema, para a norma. Dizemos “eu só estou seguindo as regras” e isso para de parecer uma fuga ética para soar como a postura correta. A obediência nos dá um ganho psicológico enorme: ela nos livra do peso de decidir e do desconforto de bancar o próprio julgamento. Stanley Milgram nos mostrou algo perturbador: a maioria de nós não obedece por ser cruel, mas porque queremos desesperadamente pertencer e estar alinhados ao grupo.


Mas essa obediência cobra um preço. Para o sistema continuar nos prometendo segurança, ele precisa desumanizar quem parece ameaçá-la. E a gente começa isso não com violência, mas com palavras: rótulos, estatísticas, categorias. O "outro" deixa de ser uma pessoa e vira um "problema a ser administrado". Hannah Arendt chamou isso de banalidade do mal: quando a gente ajuda a desumanizar sem ódio, sem paixão — apenas como parte da rotina, onde nossa empatia só funciona para quem é "dos nossos".


O ciclo então se fecha. A desumanização do outro justifica tudo o que fizemos. Nosso medo volta validado: “Viu como era perigoso?”, “Ainda bem que a gente obedeceu”. A violência cria a prova que faltava para legitimarmos o controle. E o mais assustador é que isso não precisa de ditadores de filme; acontece nas nossas democracias, em nome do cuidado e da proteção, justamente onde a gente acredita que está fazendo o bem.


É aqui que a nossa filosofia do Angel with Amnesia entra. Somos como "anjos com amnésia": não somos maus por natureza, mas somos profundamente esquecidos. Esquecemos da nossa responsabilidade e da nossa humanidade em troca de um conforto emocional barato. Nossa proposta não é o caos, mas a retomada da lucidez. Empatia e pensamento crítico não são enfeites; são atos de resistência que interrompem o modo automático e impedem que nosso ego seja governado pelo medo.


A quebra desse ciclo não acontece na hora da violência final — ali já é tarde. Acontece muito antes, no momento em que nosso medo pede segurança. A pergunta que temos que nos fazer não é se algo é "legal", mas do que estamos dispostos a abrir mão para não sentir medo. Só preservamos nossa humanidade quando nos recusamos a trocar nossa consciência por alívio. A verdadeira resistência é a fidelidade diária ao que nos torna humanos: a coragem de pensar e sentir por nós mesmos, mesmo quando o sistema nos oferece o doce sono da obediência.

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