A Pele em Carne Viva e o Mar de Ácido: Por que o AwA Project existe
- Reildo Souza

- 25 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de jul.
Eu nasci em Salvador, Bahia — uma cidade onde o mar é o oxigênio da alma. Mas, por muito tempo, o mar foi o meu maior atormentador.
Da infância até boa parte da minha adolescência, enfrentei uma doença de pele devastadora. Meu corpo era um mapa de feridas abertas. Eu coçava até sangrar, em uma tentativa desesperada de arrancar aquela agonia de mim. Às vezes, à noite, o tecido do lençol grudava na minha carne viva, e arrancá-lo era um ritual de dor que ninguém deveria conhecer tão jovem.
Eu amava surfar. O oceano era meu refúgio, o lugar onde eu buscava a minha clareza. Mas, nos momentos críticos, entrar naquelas águas parecia tomar um banho de ácido. O sal que deveria purificar queimava cada centímetro da minha existência.

O Julgamento, o Ruído e a Somatização da Dor
Enquanto meu corpo ardia, eu ainda precisava encarar os olhos do mundo. Eu via as expressões de repulsa. Sentia o julgamento silencioso de uma sociedade que cultiva a estética superficial, o desempenho e a perfeição, ignorando completamente a essência humana.
Somando-se a isso, eu vivia com uma sensibilidade profunda e sem filtros. Minha empatia era uma faca de dois gumes — ao mesmo tempo uma bênção profunda e uma maldição pesada. Eu não apenas observava as pessoas; eu as absorvia. Sentia a alegria delas profundamente, mas, na maioria das vezes, carregava o peso esmagador da dor delas, incapaz de filtrar ou gerenciar o ruído emocional ao meu redor.
Pior ainda, percebi com o tempo que essa absorção emocional desgovernada piorava minha condição física. Eu estava literalmente somatizando tudo o que sentia — transformando o peso emocional do mundo em dor física crua na minha pele.
O peso combinado tornou-se tão avassalador que cheguei ao meu limite. Pensei em dar fim a tudo, não vendo saída para a agonia física ou para a sobrecarga interna.
A Mudança, o Colapso e a Peregrinação a Assisi
Anos antes, apesar do atrito constante da doença física e do esgotamento emocional, eu havia lutado para construir minha base. Consegui me formar, graduando-me em administração e concluindo pós-graduações em análise de sistemas. Quando me preparei para mudar de país a fundo para buscar outro mestrado no Canadá, graves e crônicos problemas de sinusite intervieram; especialistas médicos recomendaram um clima mais seco, redirecionando meu caminho para a Califórnia.
No entanto, a vida na Califórnia trouxe suas próprias reviravoltas sísmicas. A base acabou fraturando completamente quando a mudança foi seguida pelo fim de um relacionamento de quatro anos e pela perda repentina da minha carreira estável de sete anos. Do dia para a noite, os pilares que eu usava para definir minha identidade foram arrancados.
Buscando respostas e uma saída para os escombros, fiz as malas e parti para fazer um mochilão pela Europa, visitando seis países em busca de solo firme. Mas não foi até chegar a Assis (Assisi), na Itália — a cidade natal, antiga e profundamente espiritual de São Francisco — que a verdadeira mudança ocorreu.
Cercado pelas pedras seculares de Assis, despojado da rotina e de distrações confortáveis, experimentei um avanço interno profundo. Naquele santuário silencioso, o ruído acumulado da vida moderna desapareceu, e me reconectei com a base mais profunda da minha espiritualidade. Percebi que minha dor de corações, a perda de carreira e meu sofrimento físico não eram punições aleatórias; eram o atrito necessário para romper a casca superficial do ego e lembrar quem eu realmente era.
O Despertar: Da Dor Individual ao Pensamento Crítico
Foi precisamente dentro dessas batalhas que se cruzavam — doença crônica, imigração, perda de carreira, sobrecarga emocional e o desmoronamento de tudo o que era familiar — que a fundação de tudo o que faço hoje foi forjada.
Comecei a perceber que meu corpo e minha mente estavam somatizando não apenas o atrito físico, mas o conflito profundo de tentar me encaixar em um sistema doentio e hiper-isolado. Vi que a amnesia social nos faz esquecer quem somos, nos enganando para acreditarmos que não somos nada além de nossas embalagens, status ou falhas.
Por pura necessidade, tive que aprender a gerenciar minha empatia avassaladora. Foi aí que o pensamento crítico nasceu. O pensamento crítico tornou-se meu escudo — uma forma de separar meu verdadeiro eu do contágio emocional do ambiente e de questionar o condicionamento social que exige que a gente desempenhe um papel em vez de simplesmente existir.
Essa realização foi o nascimento do Angel with Amnesia. Descobri que minha essência central era totalmente inacessível ao ácido, à doença ou ao julgamento social. No momento em que parei de lutar contra minha própria pele e aprendi a ancorar minha empatia com uma investigação clara e objetiva, a cura verdadeira começou.
A Ponte: Por que a Mudança Interior e a Mudança Social são Interdependentes
Minha trajetória como filósofo, consultor e terapeuta holístico em Los Angeles está inteiramente enraizada nessas cicatrizes. Eu sei o que é ter uma alma em carne viva, e sei o quão alto o ruído do mundo pode ser quando ele tenta te convencer de que você não tem valor.
É por isso que o Projeto AwA existe.
A mudança interior e a mudança social são profundamente interdependentes; você não pode curar a si mesmo enquanto ignora a cultura doente que te feriu, e você não pode transformar a sociedade sem primeiro quebrar a amnesia dentro da sua própria mente.
A indagação crítica foi a ferramenta que me salvou de me afogar na sobrecarga emocional.
A empatia inteligente é o que me permite virar essa sensibilidade para fora, transformando a dor pessoal em uma porta de entrada para a conexão humana genuína.
A Missão
O Projeto AwA existe para que você não precise se afogar em um "banho de ácido" para acordar. Estamos aqui para treinar seu pensamento crítico e educar sua empatia — não apenas para a sua própria cura pessoal, mas para que você possa retornar à sua família, ao seu local de trabalho e à sua comunidade como um catalisador.
Estamos construindo um movimento de células locais — grupos autônomos de pessoas despertando juntas, provando que a conexão é o antídoto contra o isolamento.
Você é muito melhor do que a sociedade diz. É hora de lembrar.



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